O preço do perfeccionismo

O preço do perfeccionismo: O que ninguém te conta sobre o desenvolvimento de jogos

Opinião

Já parou para pensar por que um jogo lançado hoje, com tecnologia de ponta, às vezes chega às lojas com tantos bugs que parece inacabado? Pois bem, a resposta não é preguiça dos desenvolvedores. Na verdade, ela mora em uma cultura sombria que a indústria chama de “Crunch”. Sinceramente, como alguém que vive e respira games, eu precisei entender o lado B do que acontece dentro dos estúdios para ter uma noção clara do porquê o nosso passatempo favorito é tão caro e, por vezes, tão instável.

O “Crunch” e o dilema do prazo de entrega

Primeiramente, precisamos desmistificar o que é o “Crunch”. Basicamente, é o período em que a equipe trabalha muito além das horas contratuais, chegando a madrugadas e fins de semana, tudo para cumprir uma data de lançamento que foi definida por investidores, não por programadores. Contudo, o resultado disso é óbvio: esgotamento mental e um código que, consequentemente, sofre com remendos de última hora. Além disso, esse ritmo frenético impede que o processo de polimento (o QA – Quality Assurance) seja feito com a calma necessária.

Tabela: O ciclo de vida de um AAA (A realidade vs. Expectativa)

FaseO que o jogador esperaO que realmente acontece no estúdio
Pré-produçãoIdeias revolucionáriasMuita tentativa e erro / cortes de custo
ProduçãoGráficos incríveisPressão por metas / Crise de recursos
LançamentoJogo liso e perfeito“Day One Patch” de 50GB para corrigir tudo
Pós-lançamentoConteúdo novoCrise de “burnout” na equipe

A matemática dos bugs (ou por que o seu jogo trava)

Para muitos, um jogo travando é só falta de competência. Entretanto, a realidade é matemática pura. Imagine só: um jogo moderno tem milhões de linhas de código. Agora, tente coordenar centenas de pessoas diferentes trabalhando em partes distintas desse mesmo código. Portanto, quando você encontra um “glitch” bizarro, muitas vezes, é apenas um conflito de integração que passou despercebido por causa da pressa do Crunch. Sendo assim, aquela atualização gigantesca no primeiro dia é, basicamente, a equipe de desenvolvimento tentando terminar o jogo enquanto você já o está rodando.

Por que devemos apoiar estúdios mais éticos?

Aliás, não estou dizendo que devemos passar pano para produtos ruins. Contudo, precisamos aprender a distinguir entre um estúdio que não se importa e um estúdio que foi levado ao limite pela ganância corporativa. Vale destacar, ainda, que quando apoiamos empresas que respeitam o tempo de seus funcionários, nós, em última análise, garantimos jogos melhores. Afinal, um programador descansado e com tempo hábil escreve um código muito mais limpo e otimizado. Em suma, a qualidade do nosso entretenimento passa, diretamente, pela saúde de quem o cria.

Para se aprofundar, veja meus outros artigos sobre o setor: Recomendo muito que você acompanhe o site Game Developer para entender as entranhas da indústria, e o portal Kotaku para as coberturas jornalísticas sobre as condições de trabalho.

Conclusão

Entender o que rola nos bastidores muda a forma como olhamos para a nossa coleção de games. É evidente que queremos produtos impecáveis, mas talvez o “perfeito” custe caro demais para quem está lá na ponta, escrevendo o código sob pressão. E você? Quando se depara com um jogo lotado de bugs, qual é a sua reação imediata? Você prefere esperar um adiamento para ter um jogo polido ou prefere jogar logo, mesmo que com falhas? Comenta aqui embaixo!

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